Senador quer acabar com terno no Congresso

Lilan Tahan, do Correio Braziliense

As altas temperaturas de Brasília este ano provaram ser um fenômeno democrático. As tardes tórridas da capital da República, como não se via desde 1960, não pouparam a compostura sequer de suas excelências deputados e senadores, que mesmo protegidos com o frescor do ar-condicionado suaram a camisa na seca candanga e sentiram o desconforto de morar a mais de mil quilômetros da beirada de um oceano. Estimulado pelo calor , um senador da República levantou o debate. Terno: usar ou não usar. Acostumado à umidade do estado que representa, o Espírito Santo, Gerson Camata (PMDB) está empenhado em acabar com a obrigatoriedade do traje protocolar no Congresso Nacional. Amanhã planeja suscitar a discussão em reunião da Mesa Diretora no Senado.

Camata partirá de dois argumentos para derrubar o uniforme entre os políticos. Um de apelo prático: “Qual o sentido da obrigatoriedade do terno num país onde o sol é de rachar?” O outro com conteúdo com contornos técnicos: “Vai ser mais barato manter o Congresso a temperaturas dois, três pontos mais altas”. A idéia do senador é conseguir uma autorização da Mesa Diretora para experimentar a novidade durante um mês. “É um teste para os cofres públicos e para a saúde dos parlamentares”, defende o senador, que só dá o nó na gravata minutos antes de entrar no plenário, onde a indumentária é exigida.

Nem só os efeitos nocivos do calor, encorajaram Camata a levantar a bandeira do casual day de segunda a sexta no Congresso Nacional. Certa vez, o senador teve de emprestar o paletó e a gravata para que o prefeito de Iconha, cidade a 88km de Vitória, cruzasse a linha que separa o Senado da Câmara dos Deputados. “Depois pedi a um assessor para resgatar a minha roupa. Esse tipo de restrição não é nem um pouco democrática”, condena Camata, com saudade dos tempos em que andava de bota e calça jeans, quando era governador do Espírito Santo na década de 1980.

Mas ao que tudo indica, o peemedebista pode ter dificuldades para emplacar o traje esporte fino no Congresso. A começar pelo discurso conservador do presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN), quando o assunto é alterar o status quo da moda no Congresso Nacional. “Não sei não, mas acho que a curto prazo é muito difícil viabilizar essa mudança. Até entendo as preocupações ambientes, de economia, de saúde do Camata, mas transformar os hábitos das pessoas é coisa muito difícil, até porque essas pessoas estão acostumadas e compenetradas a um simbolismo de hierarquias e valores, que passa pela roupa”, considera o presidente do Congresso.

Com ele, está o deputado Clodovil Hernandes (PTC-SP): “Acho o fim, horrível mesmo, fico pensando que se começarem a avacalhar as coisas desse jeito, onde vamos parar?”, indigna-se o deputado-estilista. E se não houver outro jeito de contornar as tardes quentes da capital na próxima temporada de calor, o consultor de moda e superintendente da VR e da Calvin Klein Leonardo Carvalho dá um conselho aos políticos: “Os ternos de lã fria em alta gramatura são tão leves, mas tão leves que dá a impressão de se estar andando sem roupa alguma”

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